quinta-feira, 29 de maio de 2008

Agenda de 10 segundos


E mais uma vez, Tom Coelho nos ensina como driblar a rotina que nos torna cada vez mais medíocres...


“Se não agora, quando?” (Hillel)


O despertador toca e você cogita seriamente ignorá-lo. Mas levanta-se, toma banho, escova os dentes, veste-se e serve-se de um rápido café da manhã. Talvez apenas café.No caminho para o trabalho, seja de carro ou de ônibus, o trânsito enseja sensações que lembram “O Grito”, de Edward Munch. Parece que todos resolveram lançar-se às ruas no mesmo instante!Talvez você avance um semáforo vermelho, talvez invada a faixa de pedestres. Talvez seja multado, talvez não. é possível que dê ou receba uma “fechada” durante uma manobra para mudança de pista que, embora arriscada, não reduzirá em nada o tempo de deslocamento. Talvez você seja alvo ou autor de xingamentos. é provável que chegue ao destino com atraso.No trabalho, você cumprimenta laconicamente seus colegas. Muitos papéis aguardam atenção na caixa de entrada, que será esvaziada e preenchida seguidas vezes no decorrer do dia. E que terminará novamente repleta de compromissos. Vários telefonemas para dar, receber e retornar. Muitos e-mails para ler, responder e ignorar.Seu superior solicita urgência urgentíssima num projeto engavetado há meses. Algum cliente apresenta-lhe uma reclamação qualquer. Você dispara contra seus subordinados.O almoço ocorre fora de horário, no mesmo restaurante e com o mesmo sabor já industrializado em seu paladar. Talvez você fume um cigarro, talvez prefira uma bala de hortelã. Talvez os dois.E assim transcorre o dia, até o momento de retornar para casa, lembrando-se de Munch, uma vez mais, durante o trajeto. Talvez você vá até uma academia fazer ginástica, talvez vá ao conservatório praticar um instrumento, talvez vá ao shopping olhar vitrinas. Ou talvez se contente com o noticiário, a novela e o reality show. Até que o despertador toque novamente, no dia seguinte...A palavra é: rotina. Assim vivemos e morremos, dia após dia, percorrendo os mesmos caminhos, mecanicamente. Assim tornamos nossas carreiras desestimulantes, nossos relacionamentos insípidos. Desencanto, alienação e desespero. O prazer e a alegria são raros. E voláteis. Somos completamente infelizes em nossa infelicidade e brevemente felizes em nossa felicidade. E estamos sempre aguardando o dia seguinte, quando tudo o que era para ter sido e que não foi acontecerá.Ouço músicas que gostaria de ter ritmado, leio textos que gostaria de ter escrito, vejo produtos que gostaria de ter fabricado e conheço idéias que gostaria de ter tido. Então percebo que tudo aquilo foi criado por pessoas como eu, dotadas de angústias e limitações, certamente não as mesmas, pois com origem, intensidade e amplitude diferentes. Pessoas que se superaram, talvez não o tempo todo, talvez por apenas uma fração do tempo.Já falei muito sobre futuro. Sobre a importância de termos uma visão de futuro, sobre a capacidade de sonhar, a habilidade de traçar metas e a disciplina para concretizá-las. E não recuo em meus propósitos, porque são princípios. Mas inventei para mim uma nova agenda. Ela não se compra em papelaria, porque nela não se escreve. Não está disponível em versão eletrônica, porque nela não se digita. Seu custo é nulo, pois não demanda investimento, não exige que se tenha um palm, uma caneta, nem sequer alfabetização. é uma agenda da mente. é uma “Agenda de 10 Segundos”.A cada amanhecer, tenho a certeza de que aquele é o momento a ser vivido. Em que pesem os planos voltados para o futuro, com os pés firmes no chão e os olhos no firmamento do céu, a vida está acontecendo aqui e agora. Por isso, minha agenda não pode contemplar mais do que os próximos 10 segundos. Talvez breves, talvez distantes, talvez intermináveis e, talvez, inatingíveis 10 segundos.Esta consciência tem me permitido agradecer a cada despertar em vez de hesitar em me levantar. Tem me sugerido dar passagem a alguém no trânsito ao invés de brigar por insignificantes três metros. Tem me lembrado de dizer “bom dia” aos que me cercam. Tem me incitado a procurar novos restaurantes e novos sabores durante o almoço. Tem me proporcionado o poder de resignação e de resiliência diante das inúmeras adversidades que se sucedem. Nem sempre tem sido assim. Mas assim tem sido sempre que possível.Fundamentalmente, a Agenda de 10 Segundos tem me ensinado a agradecer, a elogiar, a perdoar, a me desculpar, a sorrir e a amar no momento em que as coisas se dão. E isso possibilita amizades fortuitas que se tornam perenes, negócios de ocasião que se tornam recorrentes e paixões de uma única noite que se tornam amores de toda uma vida.

domingo, 25 de maio de 2008

E aproveitando o ensejo...


No emaranhado de pensamentos da minha confusão mental, deparei-me com um texto que li há pouco tempo, que vem a calhar com ambos os assuntos, e talvez ilustre um pouco desse sentimento e também dê algumas dicas de como ser menos medíocre.... sendo bobos!!!



Das Vantagens de Ser Bobo - Clarice Lispector


"O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo.

O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo. Estou pensando."

Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a idéia.

O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem.

Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas.

O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski. Há desvantagem, obviamente.

Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro.

Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranqüilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu.

Aviso: não confundir bobos com burros.

Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera.

É uma das tristezas que o bobo não prevê.

César terminou dizendo a célebre frase: "Até tu, Brutus?"

Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz.

O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham a vida.

Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem.

Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas.

É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca.

É que só o bobo é capaz de excesso de amor.

E só o amor faz o bobo."

Arte Naïve


Quadros de Tercília dos Santos, uma das principais representantes da arte naïve catarinense.


A Arte Naïf ou Naïve (pronuncia-se naíf) ou ainda, arte primitiva moderna é, em termos gerais, a que é produzida por artistas sem preparação acadêmica na arte que executam (o que não implica que a qualidade das suas obras seja inferior). Caracteriza-se pela simplicidade e pela falta de alguns elementos ou qualidades presentes na arte produzida por artistas com formação nessa área.
As principais características desta são a forma desajeitada como se relacionam determinadas qualidades formais, dificuldades no desenho e no uso da perspectiva que resultam numa beleza desequilibrada mas, por vezes, bastante sugestiva. Ressalta-se ainda, o uso freqüente de padrões, uso de cores primárias, sem grandes nuances e a simplicidade no lugar da sutileza. , etc.

Segundo Oscar D´Ambrósio, arte naïve é a que se convencionou chamar arte primitiva que é produzida por artistas não-eruditos, a partir de temas populares geralmente inspirados no meio rural.” Há a ramificação também da arte na naïve, que se concentra em espaços urbanos, mas da mesma forma primitiva, por seus autores não acessarem diretamente a erudição da pintura.
A arte naïf está diretamente à criação popular, tanto no que diz respeito à sua criação “ingênua” como na receptividade facilitada por um grande público. Mas o que seria o popular? Para o crítico de arte Américo Pellegrini Filho, a arte popular se caracteriza pelo autodidatismo, por técnicas rudimentares adquiridas de modo empírico, pela espontaneidade e liberdade de expressão, e informalismo (ausência de aspectos formais acadêmicos, como composição, perspectiva e respeito às cores reais).

Eis que finalmente desenvolvi!!!

Resolvi que deveria constar como post inicial uma citação que adoro e sempre recorro quando começo a me sentir medíocre.

“Falta-nos ousadia para adotar novas práticas (...)! Nossa mediocridade ensinada congela nossos ímpetos corporativos, impedem-nos de investir em nossas próprias idéias, de acreditar em nossos mais castos ou ambiciosos sonhos. Se mostra presente em nossas vidas pessoais, exacerbando nossa timidez, trazendo consigo a hesitação por uma palavra, por um beijo, por uma conquista mútua. Tempera relações sem usar sal ou pimenta, adota a monotonia e culpa a rotina. Observe como nunca somos medíocres no início de um namoro, da troca de olhares ao flerte, do perfume das flores ao sabor dos bombons. Tudo isso até o primeiro beijo, o único realmente verdadeiro, pois dele deriva muitos outros até os meramente, e finalmente, protocolares, como a nota cinco necessária para se passar de ano.” (Tom Coelho)

Para justificá-la, acho que o mundo está ficando cada vez mais medíocre e de nada adianta culparmos a mídia, os meios de comunicação ou os outros, quando na verdade, nós mesmos contribuímos para a mediocridade.
E o que essa tal mediocridade?
A mediocridade a qual me refiro é a falta de criatividade, de autenticidade, essência, afirmação, iniciativa e originalidade das pessoas.
Somos, desde novos, ensinados a sermos medíocres, pois é de bom tom, ou por esse ou aquele motivo, e acabamos sendo impedidos (na grande maioria das vezes) de sermos pessoas livres. Livres de pensarmos, falarmos e enfim, sermos o que bem entendemos. Claro que as coisas têm limites! Se não, viveríamos num caos pior do qual já nos encontramos, mas um pouco de originalidade não faria tão mal, certo?

E foi aí que tudo começou... as intenções desse blog são de expor, dentre os 71 milhões de blogs já existentes, um pouco desse movimento anti-mediocridade.

Como preciso postar algo referente ao trabalho de pós, juntando pedaços daqui, outros de lá, resolvi escrever um pouco acerca da arte naïve, que de ingênua não tem nada.